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Placebo - "Não há nada de novo sob o sol, imagine sob os holofotes dos estúdios" // 04.11.2004
Começou de novo. Ao fazer compras, quase levei para casa uma "especialidade láctea à base de creme de leite", ao invés do próprio creme de leite que minha lista exigia. A embalagem era a mesma utilizada pela categoria, estava junto aos produtos que tentava imitar, e tinha o menor preço dentre todos, R$ 0,99. Na pressa, peguei aquela caixinha longa-vida e saía até satisfeito pela economia da escolha, quando me toquei que isso já havia acontecido uma outra vez. Eu estava sendo enganado.
Um preço tão mais baixo que os similares não podia ser verdade, não fazia sentido. Como não fez. Retornando à gôndola, pude comprovar que na embalagem não estava expresso claramente qual era o produto ali contido. Como se achava em meio aos cremes de leite, parecia um creme de leite, deveria ser um creme de leite. Farsa. Havia a marca do fabricante, grande, no alto, a ilustração de uma paisagem rural, e lá no rodapé, em arial: "especialidade láctea à base de creme de leite". A marca em questão é a Leco, controlada pela Vigor.
Quem se lembra do filme "No mundo de 2020", com Charlton Heston, já deve estar bolado. Lembram do "soilent green"?
O mesmo já acontecera com o requeijão, e a revista Veja de 27/10 relatou a mudança do mercado deste produto, se bem que de forma acanhada e lamentavelmente atrasada. È inacreditável, mas marcas sólidas como a Poços de Caldas não vende mais o que a tornou tão famosa, quase sinônimo da categoria. É verdade, você não vai encontrar no mercado requeijão Poços de Caldas. Acabou. Agora, só a "especialidade láctea". A embalagem é a mesma de sempre, ou seja, quem percebeu, se é que percebeu, demorou a fazê-lo. E há mais. Numa espécie de "splash" vemos escrito "novo produto" e, abaixo da conhecida marca, "tradicional". Como assim, um "novo produto tradicional"?!
Sobre este assunto alertei quantos pude, depois de ter comprado, por pelo menos duas vezes, uma "especialidade láctea" dessas, ainda na boa-fé de estar adquirindo o produto original. O que os caras fazem é imoral, mas, segundo a revista (e a lei), está tudo certo, nos conformes. E que fique satisfeito o consumidor, pelos preços estarem baixando.
Mas o que é isso, minha gente?! Então, já que o negócio é uma massa branca que dá liga e serve de coadjuvante a molhos e adornos, vamos substituir o original por uma coisa parecida e baixar o preço? Colocar ao lado dos produtos tradicionais e, aos poucos, ir substituindo de forma que ninguém perceba e até um ponto que seja incontornável?
Pois eu acho que tudo isso parece com a propaganda política.
Induzir ao erro e à confusão é a intenção da indústria, ao vender um arremedo de sua própria marca, num pastiche escancarado que não vê limites. É natural, os caras são capitalistas.
E qual seria a intenção dos políticos ao venderem sua imagem e unicamente sua imagem, sem recheio, sem ideologias, sem projeto algum (ou um único porém inatingível), do jeito que vimos nas últimas campanhas?
Não há nada de novo sob o sol, imagine sob os holofotes dos estúdios. Vimos ainda outro dia Lula prometer 10 milhões de empregos e depois admitir que havia sido uma "bravata" (sic) de campanha. Sim, ele admitiu e usou esta palavra. Agora, em Vitória, vimos o candidato do mesmo partido suceder dois mandatos consecutivos do PSDB (situação análoga àquela disputa nacional) com um mega-projeto de um metrô de superfície ao custo de R$ 2 bilhões. Os estragos tendem a ser maiores na esfera do município, já que a cidade é, "mais que o Estado e o País, o âmbito da relação direta e imediata da população com o poder público" (Editorial do Estadão, 02/11).
Curioso que dois dias depois do pleito a manchete de A Gazeta, diário mais influente da capital, seja a de que o Governador descarta a obra e o prefeito eleito diz que a mesma não tem data para começar (A Gazeta escolheu revelar fatos, ou entrevistar pessoas - no caso, o Governador - após as eleições, evitando influenciá-las. Mas essa imparcialidade pode ser entendida como uma perigosa omissão, já que a hipótese de as propostas do candidato eventualmente vencedor serem apenas bravatas seria facilmente confrontada por qualquer foca em algumas horas ao telefone. O medo é ficar melindrado com a futura administração e sua verba publicitária, mas tudo isso é um outro assunto).
É uma prateleira de mercado, as marcas estão lá, umas são legítimas, outras, parecidas, e na verdade, nada disso importa. Candidatos são tão fracos que precisam de padrinhos, "marcas" mais fortes que eles mesmos. E vemos os governos estadual e federal como parte de um grande esquema para a manutenção do status quo. O prato será servido, o dia nasce de novo e, prefeito ou presidente novo, ninguém se importa. Então, há uma receita, uma fórmula baseada na arte da persuasão, do debate, da capacidade de criar efeitos que favoreçam a identificação do representado ao representante. "Denuncia-se, então, a transformação do Estado em espetáculo, em teatro de ilusão" (Georges Balandier, O Poder em Cena).
Existe mesmo algo de estranho e até um mal-estar quando o marqueteiro aparece mais que seu cliente. Quando uma embalagem é mais importante que seu conteúdo.
Finalmente o curso de publicidade já não é o mais procurado no vestibular da Fuvest, tendo sido superado pelo de formação de oficiais da Polícia Militar. Procurando entender este dado através da lei da oferta e da procura, talvez isso signifique que a médio prazo teremos menos produtos e prateleiras, e mais saques, neste supermercado chamado Brasil.
Paulo Eduardo Rios - redator
www.marmitexto.blogger.com.br
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