Vitória, 30 de Abril de 2005





















 
:: mercado


A propaganda bouchonée // 28.09.2004

A rolha e a garrafa de vidro trouxeram o vinho aonde se encontra hoje. Na conversinha entendida das confrarias que pululam por aí à cotação de neo-zelandeses a 5 mil reais a ampola, e por aí vai; desnecessário elaborar mais sobre o valor e o simbolismo da bebida que é também sinônimo de estado de espírito. Biblicamente falando.

O que havia antes do século XVII era uma beberagem ritualística que virava vinagre mais rápido do que se conseguia beber - e olha que os bacanais, os festivais em homenagem à Baco, eram a balada da hora.

A cortiça é extraída da casca do sobreiro (quercus suber), raridade nativa de Portugal, em maior quantidade, e Espanha. Às vezes a madeira é atacada por um fungo (TCA), que vai se manifestar mais tarde, quando a rolha entra em contato com o líquido, já na garrafa, contaminando-o inapelavelmente.

Assim, diz-se que o vinho, que adquire um gosto que lembra bolor e pano molhado, está "bouchonné", ou "corked" (de "bouchon" e "cork", rolha em francês e inglês, respectivamente). E não importa quanto custou.

A estatística de rolhas contaminadas é baixa, entre 2% e 5%. O controle está maior, a biotecnologia tenta ajudar, mas a natureza segue seu rumo. Este é um problema estrutural deste business. Mas como evitar o prejuízo quando se pensa em escala, colheitas inteiras?

Para controlar o risco, grandes atacadistas do primeiro mundo, como a Tesco, estão impondo aos produtores uma nova tampa, metálica, chamada "screwcap". São aquelas tampas de rosca, já utilizadas em pequenas garrafas de vinho servidas em vôos comerciais. Mercados neófitos como Austrália, Nova Zelândia, Chile e Estados Unidos já embarcaram nessa. Vinícolas francesas tradicionais, como o Château Margaux, engarrafaram safras recentes usando rolha e screwcap. Agora é sentar e esperar para conferir se os resultados serão satisfatórios. Vinho é paciência. Pode ser que até lá seja encontrado o antídoto para o TCA.

O que apreendemos disso tudo? Uma baita lição de propaganda.

Afinal, o que é o vinho senão um grande produto de marketing, talvez o mais antigo (até com um milagre no fabulário), extraído do contexto da toalha xadrez ancestral e das refeições em família por enormes corporações para alcançar preços fabulosos nas prateleiras de importadoras, supermercados e postos de gasolina? Daqui contemplamos séculos de história.

Lembram como eram feits os anúncios, digo, como metíamos a mão na massa para fazer os anúncios? O copyproof, as fotoletras, o nanquim, a letraset, a meleca, retículas, o overlay. E, meu Deus, o próprio sentido que a palavra "rough", ou o velho "rafe", fazia, quando se aprovava aquele pedaço de papel manteiga rabiscado de grafite HB!

Agências tinham estúdio e laboratório fotográfico próprio. Montava-se a arte final, e cada uma das no mínimo cinco pessoas presentes assinava no carimbo no verso do papel rígido a revisão de sua parte na tarefa. Daí era entrar no carro e voar até a Gazeta e entregar o anúncio para o Zé Gonçalves. Será que havia pizza delivery? Certamente, mas não com a intensa oferta e muito menos com esse nome. Sinal dos tempos: agora é possível enviar o anúncio para o jornal por e-mail.

Perdemos alguma coisa no processo. Toda a manufatura do negócio trazia uma
experiência de cada profissional envolvido, em cada e pequena etapa, que simplesmente não existe mais. Não tem volta. E não tem nada a ver com saudosismo, é quase uma força da natureza.

Mas vemos ficar na poeira das caves metafóricas um bocado da magia da profissão. Ainda são cultuados os publicitários da velha cepa, não existem as unanimidades das grandes safras. Grandes marcas ainda existem, mas não respeitam sua própria história. As agências contratam e promovem tudo o que é novo, como é inerente à atividade. Todavia, se depois de tanto tempo não aprenderam também a valorizar a experiência, ou ao menos respeitá-la, podem estar oferecendo o que dizem ser o melhor vinho do mundo, mas estragado, e não tem gente em sua equipe capaz de diferenciar uma coisa da outra.

É como esse lance do "screwcap". Vamos continuar bebendo vinho, e fazendo anúncios, como sempre. Talvez o que mude seja apenas a ressaca.

Paulo Eduardo Rios - redator
www.marmitexto.blogger.com.br



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