:: mercado
O redator virou atendimento // 18.09.2004
Na verdade, é a redatora. Mas achei que no masculino iria ficar melhor, além de combinar em gênero e grau com o atendimento. Só assim mesmo para o redator, uma ilustre figura da criação, combinar com o atendimento. É como dizem por aí: atendimento só tem dois neurônios - um pra levar a campanha e outro pra trazer o job. Foi pensando nisso que pensei em virar atendimento. Mentira. Pensei nisso numa época em que fiquei desempregada. E também porque acho que poderia fazer um bem para o mundo, pelo menos ao mundo da publicidade. Que seja. Pensa só: os briefings serão bem escritos, sem erro de português, um texto muito bem amarrado e com direito a sacadinhas criativas do tipo o cliente comprou a idéia mas não tem dinheiro para pagar.
Existe um outro bom argumento para eu virar um redator(a)/atendimento. Vou poder chegar do cliente com várias idéias, quem sabe até antes de chegar na agência eu já tenha a campanha criada. Um profissional assim deveria ganhar em dobro. É muita eficiência junta, ou melhor, o redator é um ser muito eficiente que sozinho ainda consegue ser atendimento (o que, na verdade, não exige muito esforço). Mas tem um problema. O pessoal da criação pode achar que eu passei para o lado do inimigo, eles podem não compreender o quão importante vai ser a minha colaboração.
Uma vez acusei minhas amigas-atendimento de não serem publicitárias. Eram caretas, burocráticas e sem nenhuma criatividade. Do jeito que elas eram, poderiam muito bem ser gerente de banco, trabalhar num escritório de contabilidade, ser funcionária pública estadual. Tudo menos publicitária. Por que todo mundo acha que só a criação que tem que ser criativa? Que besteira. É a agência inteira, in-tei-ra, que tem que pensar muito, ter muitas idéias para mostrar que é diferente. Senão fica parecendo um escritório que faz reclames pro jornal e não uma equipe que pensa unida numa solução para a falta de verba do cliente e sua enorme vontade de vender.
Escrevi este texto antes me tornar sócia da Fire. Parece até que foi vidência porque aqui realmente atendo muitos clientes. E questiono cada pedido que é feito, cada mudança que é solicitada. Isso é muito positivo, mas por outro lado me toma tempo e me impede de voltar a pensar, da forma mais pura que existe, em um anúncio para ganhar prêmio (jogue a primeira pedra quem nunca sonhou em pôr as mãos num trofeuzinho). Virei atendimento também, mas quero muito voltar a ser redatora/criadora/pensadora. Ou, de alguma forma, conseguir tempo para conciliar as duas funções. A solução, talvez, seria o atendimento se tornar mais criador. É possível?
Elisa Quadros é redatora e sócia da Fire.
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