:: mercado
Quem vê simetria entre futebol e publicidade que me siga.
Muitas vezes é a crítica do futebol a melhor parte do jornal, e a coluna do Tostão de 14 de julho (primeira fase da Copa América 2004, vencida pelo Brasil) confirma a triste constatação. Triste não por ser uma crítica de futebol, trincheira de excelentes jornalistas "à sombra das chuteiras imortais", como Nélson Rodrigues. Fico macambúzio é pela parcimônia nas boas letras neste papel tintado diário que, doravante, consumo ávido. Vamos lá.
Segundo o ex-craque, "parte das pessoas que elogiou tanto o Alex no ano passado quase só assistiu aos melhores momentos das partidas... Eu prefiro muito mais um jogador que brilhe intensamente em poucos e decisivos lances e que seja discreto no restante da partida a um bom e regular que não faça nada de extraordinário. Alguém já disse, com sabedoria e exagero, que a regularidade é virtude dos medíocres".
Agora olhe ao redor e me diga: sua Criação se parece com uma cancha de futebol?
Os jogadores estão mobilizados para a partida (sendo jogadores estes seres de pelagem esquisita no rosto e óculos estranhos aí, e a partida a faina de eliminar a maior quantidade de jobs possível em um dia)?
Além do pobre recurso presidencial da metáfora futebolística, pelo que peço perdão, existem similitudes menos nobres entre uma profissão e outra, apontadas pela citação do Tostão, que me servem de argumento.
Senão, vejamos: "parte das pessoas que elogiou só assistiu aos melhores momentos das partidas". Ora, aí estão as premiações da categoria! É quando a agência e seu pessoal aparecem bem na fita, no CD e no DVD. Do que se depreende que julgar pelos melhores momentos atrapalha. Seja o empresário que vai contratar os serviços, a imprensa especializada que puxa o saco e os profissionais que desejam integrar a equipe campeã, todos ficam com a ilusão de que aquele time só joga bonito.
É legal jogar bonito, mas não dá pra ganhar sempre de goleada. Um campeonato é feito de vitórias (pelo placar que venham) e regularidade. Mas, peraí. Isso é bom?!
De repente o cara pára, mergulha numa Nuvem de Oort particular e de lá retorna com o título que faltava, o argumento elementar, o layout estelar. Recusado. Queremos o feijão com arroz, sem farinha. E a jogada sensacional sai espirrada para escanteio. Ou pior, tiro de meta, reposição do time adversário!
Das duas, uma: ou o sujeito pensa em pendurar as chuteiras e abrir uma escolinha de futebol, quer dizer, dar aulas nas faculdades que pululam por aí; ou resolve persistir. Penso com tristeza em como o Bebeto deve ter se sentido ao entrar em campo numa partida de exibição pelo Flamengo de Guarulhos.
Mas existe slogan após os 90 minutos? Há criação que resista ao ritmo do campeonato?
Tenho encontrado dificuldade. Às vezes acho que é o gramado, a chuteira, o treinador... Tem horas em que nada ajuda, veja o meu Flamengo freqüentando a lanterna do campeonato. Professor, procuro jogar bonito, mas o time não colabora!
Recentemente fiz uma campanha para um cliente que já atendera antes. Na primeira ocasião, durante quase dois anos, nem texto de edital passava, e não foi só uma vez que o mau-humor tecnicista dos engenheiros preferiu veicular o texto da secretária que o meu. Essas coisas tiram a alegria de viver da gente. Tempos depois encontrei o mesmo cliente na outra ponta do job, mas em outra agência. E o placar foi chocolate, para todos. Pois não é que os mesmos enjoados de antes aprovaram uma campanha belíssima? Conseguimos emplacar uma campanha enorme, de seis filmes de um minuto cada, onde não se vêem gráficos, números, jograis fáceis nem lugares-comuns.
Mas talvez você prefira imaginar que a criação publicitária seja como um jogo de xadrez. É, pode ser que fique mais bonito. Não tem o barro da várzea, mas mesmo nesta situação análoga, faz falta o trabalho de time. Fala Garry Kasparov, campeão mundial: "Num esporte de equipe, como o futebol, se o time vai bem, um Ronaldinho tem um ambiente favorável para brilhar e fazer gols. Já no xadrez, você está solitário do primeiro ao último lance. Se é derrotado, o fracasso é só seu" (Veja,25/08).
Boleiro que passou pelas divisões de base, segunda e primeira divisão, hoje posso dizer com absoluta certeza: o craque faz falta, mas a diferença é a equipe em que ele joga. Por que ganhar todas tocando de letra é impossível, mas só joga bonito
quem se diverte jogando.
PS: Nuvem de Oort - o aglomerado de lascas de gelo que envolve o sistema solar)
Paulo Eduardo Rios Redator e professor de Criação Publicitária (FAVI - Vitória, ES)
www.marmitexto.blogger.com.br
Notícias // mais

:: 27/04/05 - MP no CCSP

:: 25/04/05 - Prêmio Aberje

:: 20/04/05 - 19ª Semana de criação

:: 18/04/05 - Estudantes ganham novo concurso

:: 15/04/05 - 2º Prêmio Universitário de Comunicação Social
 :: 13/04/05 - Nave finalista em concurso

:: 11/04/05 - Prêmio Profissionais do Ano
 :: 07/04/05 - Anúncio Dia do Jornalistas
 :: 06/04/05 - London International Festival abre inscrições

:: 04/04/05 - Kiko Siqueira deixa a F2GG

:: 30/03/05 - Redatores de plantão

:: 28/03/05 - Site Palavra Rara

:: 22/03/05 - Vagas na Set Comunicação

:: 21/03/05 - Tem gente que não precisa de propaganda

|