:: mercado
Abyssus abyssum invocat (o abismo atrai o abismo)
Agora que se discute a instalação de um Conselho Federal de Jornalismo, uma Agência Nacional de Cinema e Audiovisual, censura a funcionários públicos e projetos de governo de 20 anos, vemos uma face do governo que queríamos apenas nas camisetas apertadas de jovens estudantes em passeata contra aumentos de passagem de ônibus.
Divago, mas não me conformo com a "caretização" da sociedade, essa guinada à direita num rumo ao politicamente correto que ameaça diretamente a nossa atividade.
Camaradas, estão conspirando contra nós. Frente ao chamado às armas, temos dois caminhos a seguir. Um seria combater pelo que resta, o outro seria admitir de uma vez o dano que a atividade publicitária causa e exigir sua erradicação total. Não a erradicação da publicidade, mas sua parte danosa. Ou será daninha?
Vejamos. O setor já assimilou o duro golpe da Lei 3.156, que proíbe a propaganda de cigarros e outros produtos fumígeros em meios de comunicação de massa e o patrocínio de eventos culturais e esportivos por marcas de cigarro. Contrários à medida juntaram-se os próprios fabricantes de cigarro, o Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária (Conar), os patrocinadores de corridas de Fórmula 1 e a bancada ruralista. Da decisão perdeu-se investimento e empregos até hoje sem reparação no mercado publicitário (www.inca.gov.br). Quem não se lembra dos filmes de Hollywood, desde os clips esportivos com temas musicais até as ousadias das últimas campanhas veiculadas? Ou a campanha de Free, com seus mega-eventos anuais de música? Plaza, Minister, Charm, Carlton, Vila Rica, Continental, a lista de campanhas memoráveis é interminável. E numa canetada tudo isso (as produtoras, os câmeras, os pilotos de helicóptero, os maquiadores, os diretores de arte, os redatores, os atendimentos, etc.) virou fumaça. O porquê? Parece que propaganda, assim como o próprio cigarro, faz mal. Nos Estados Unidos, um dos alvos da luta pela proibição, o narigudo Joe Camel, foi acusado de arrastar pela sedução inocentes infantes para o vício; daí que foram condenadas as figuras infantilizadas utilizadas pela propaganda de cerveja, como a tartaruga.
A conclusão é a de que é errado fazer propaganda de coisas que façam mal à saúde.
Perfeito, pois temos dispostas as causas da cizânia.
Colegas há que não vêem problemas éticos em vender um produto nocivo à saúde e se digladiam em manter os privilégios da propaganda de bebidas "leves" (cervejas, vinhos e bebidas do tipo "ice", abaixo de 13 º Gay-Lussac) livre das restrições que levaram os gorós mais potentes para após as 23 horas. É o que mantém no ar, nos lares e corações de milhões de brasileiros, acesa como nunca, a Guerra das Cervejas.
Outros, como eu, vamos querer que se proíba tudo. Chega de hipocrisia. Admitamos, colegas: estamos acabando com a sociedade.
A luta do primeiro time é o que inflaciona a Guerra das Cervejas. Em 2003 foram investidos R$ 438,2 milhões em campanhas publicitárias, contando com o reforço de um novo player de peso, a Schincariol - R$ 180 milhões declarados para 2004. No ano anterior, a inversão havia sido de 291 milhões (Folha, 07/07/04). Neste ano, a despeito do nível dos comerciais veiculados, vemos este mesmo material ser veiculado quase que 24 horas na programação das televisões de sinal aberto. E quanto ao dano que causa à população este crescente volume brutal de exposições? Enumeram-se as fontes de dados que acusam os malefícios do álcool, desde Detrans até Delegacias da Mulher, para ficar no trivial - um trivial mortal. E quer saber: tudo legal, sem proibição. Ainda.
Quem encara esta batalha agora é a sociedade russa, numa prévia do que pode rolar por aqui. A Câmara Baixa do Parlamento da Federação Russa aprovou no último dia 6 de agosto projeto de lei que restringe a publicidade e o comércio de cerveja das 7 às 22 horas. Se aprovada pelo presidente Vladimir Putin, a regulação ainda proibirá o uso de imagens de pessoas e animais, e slogans que criem "a ilusão de que beber cerveja é importante para obter sucesso social ou em outras esferas" (Folha, 08/08/04). Restrições como essa atingiram os anunciantes fabricantes de vodka em 1995. Vai ficar ainda mais complicado para os publicitários que militam por lá. Encare como um bom exercício criar um comercial de cerveja sem mulher gostosa, animais engraçadinhos, minorias, maiorias - sem ninguém, enfim.
Mas atenção patrulheiros da propaganda, vejam que ainda existe todo um império do mal livre da cruzada da legislação salvadora. É o fast food. Sim, amigo leitor, aquele inocente sanduíche, as batatinhas, tortinhas, tudo bonitinho e embalado em papel colorido, em excesso, também mata. Morgan Spurlock é o diretor americano que lançou recentemente, na onda do Michael Moore, o documentário "Super Size Me". O filme denuncia o processo de deterioração da saúde por que passa o próprio cineasta, que durante um mês se alimentou apenas de lanches do Mac Donald's, três vezes por dia. O resultado da ingestão de 5.000 calorias diárias são 11 quilos a mais ao final da experiência, e um fígado praticamente destruído. A quantidade equivale a 23,5 quilos de tomate, 22 empadinhas de palmito ou nove pratos de feijoada tradicional (Folhateen, 05/07/04).
Sintomático: ainda segundo a Folha de São Paulo (08/08), o treinador do Santos, Vanderlei Luxemburgo, pediu aos atletas do clube que não almocem na rede de fast food após os treinos. Temeroso: Na Vila Olímpica de Atenas existe um restaurante do Mac Donald's com tudo liberado sem limites para os atletas.
Culpa: o executivo-chefe para a área de marketing do Mac Donald's, Larry Light (!), afirmou que a rede planeja a expansão dos itens de baixa caloria nos cardápios (Folha, 15/08/04).
Em tempos de patrulha ideológica e consumo consciente, a assessoria de imprensa se apressa em avisar que o Mac Donald's divulga em seu site a tabela nutricional de todo o cardápio (www.mcdonalds.com.br e, veja que sugestivo, www.comendoeaprendendo.com.br). Material promocional com ilustrações de Ziraldo também tentará convencer. Parece pouco, bem menos que se empreende para divulgar a marca para as crianças em fase de crescimento, através do personagem Ronald McDonald e dos brindes disfarçados de brinquedos didáticos do McLanche Feliz.
E a publicidade deste monstro do imperialismo ianque, como fica? Fica bem, nos estádios da Grécia, como patrocinadora oficial dos jogos olímpicos. Fica bem, na camisa da seleção brasileira de futebol de areia. Fica bem, na consciência de cada cidadão que come um Big Mac em determinado dia do mês de agosto.
E então, vão proibir o meu quarteirão com queijo também?
Paulo Eduardo Rios - Redator e professor de Criação Publicitária (FAVI - Vitória, ES)
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