:: mercado
É nas salas de aula que ouvimos falar pela primeira vez do público-alvo.
A partir deste instante, sua namorada, por exemplo, deixou de ser apenas uma pessoa para ser classificada por sua classe social, faixa etária e hábitos de consumo, entre tantos quesitos.
Súbito, a sopa de letrinhas das pesquisas de mercado passou a ser a alimentação enriquecida dos publicitários, o que é muito bom.
Todavia, os hábitos alimentares variam entre as pessoas. E, para minha argumentação, gente que trabalha com Criação parece preferir determinadas classes, como gente que se senta numa churrascaria parece preferir os cortes mais macios. É natural, dirão até os vegetarianos.
Afinal, os melhores jobs são de produtos e serviços destinados à casta mais abastada da população. Para A e B, fica mais fácil usar aquela referência refinada, e abusar um pouco na cor e nos elementos, ou na ausência deles. Para A e B, tudo é lindo. E nas pastas dos "wannabe" criativos, tome anúncio fantasma de bólidos delirantes, bebidas espumantes, amaciantes de roupas, óleos sintéticos para automóveis, resorts, alimentos light e mais uma porrada de itens que dificilmente integrariam uma cesta básica paga pelo Bolsa Família.
Mais uma vez, é natural.
E é ótimo que os profissionais estejam preparados para o mercado de consumo de alto luxo, porque - pasmem - os ricos estão se tornando ultra-ricos.
Você conhece alguém ultra-rico? Talvez sim, mas confira o sujeito por esta característica: tem que ser uma pessoa com mais de US$ 30 milhões em ativos financeiros. Nos Estados Unidos e Canadá chegam a 30 mil pessoas. Se você não for tão exigente, fica mais fácil fazer amizade: na América Latina este número é maior. As desigualdades e a corrupção forçaram 2,4% de toda a população do continente a ingressar nesta malta. Pobrecitos.
Não estão tão longe, consomem alto luxo ao seu lado. No nosso país são 6% a mais em 2004, 80 mil pessoas, com 5 trilhões de reais no banco (3 vezes o PIB de 2003!).
Nos EUA, as receitas dos hotéis de luxo subiram 11%, contra 3% nos econômicos, segundo o Smith Travel Research (Valor, 21/07). No Brasil foram emplacados no ano passado 20 Ferraris, sendo que 13 apenas no estado de São Paulo. Acredite, não é pouco: o modelo mais em conta sai por US$ 330 mil (Modena, 3.6). È na capital paulista que fica a Daslu, bombando a qualquer hora do dia. Trata-se de uma das maiores vendedoras Chanel do mundo. E, por favor, não esqueçamos do consumo acintoso do vinho Romanée-Conti. "Produtos exclusivísimos alcançam valores que ultrapassam em muito todos os atributos que ele possa ter em qualidade e sofisticação; eles transmitem o sonho do inacessível", diz Carlos Ferreirinha, da consultoria MCF
(Estadão, 20/06). Para quem quer se esmerar no assunto, existe até um MBA em Gestão do Luxo.
E é aí que o bicho pega. Porque o nosso mundo aqui não é esse, não.
Vejam o Índice de Potencial de Consumo de algumas cidades brasileiras, divulgado pela Target Marketing e Pesquisas (A Gazeta, 4/06 e revista Amanhã, maio de 2004). De cada US$ 100 gastos no Brasil, US$ 11 vão para São Paulo, US$ 5,81 para Rio de Janeiro, US$ 0,33 para Vitória, US$ 0,00831 para Santa Teresa e US$ 0,00113 para Divino de São Lourenço!
Ou seja, é certo pensar que nos preparamos para trabalhar no melhor dos mundos, mas a nossa arena é outra, bem mais perto, talvez mais do que muitos gostariam de imaginar.
Com a consolidação do modelo econômico excludente, vivemos uma crise braba, algo enfim globalizado e acessível a todos: a crise de imaginação.
Desesperançadas com o rumo das coisas, as pessoas deixam de ter e fazer planos, seja para agora, e muito menos para o futuro. Ninguém quer interferir na realidade que se apresenta, por nojo ou comodismo, se alienam e largam seus destinos à deriva dos dias e das oportunidades, cada vez mais rarefeitas. Reflexo desta inanição há de ser observado no resultado das próximas eleições, na contagem dos votos em branco.
Viramos uma massa de fácil manipulação, movida pelo medo e pelos prazeres imediatos e hedonistas, que substituem os sonhos e os ambiciosos projetos de transformação. Quantos se importaram tanto com vinhos e caves climatizadas, charutos e humidores,
como vemos cotidianamente? As confrarias do consumo desfrutado só perdem em mobilização para as ONGs (que, envergonhadas pelo tom mercantilista assumido, agora se chamam OSCIPs). Falam desta crise de imaginação Antonio Negri e Michael Hardt, no livro "Império", lançado em 2003.
Ou seja, a crise de imaginação só aumenta, porque aumenta a desesperança globalmente, e o consumo de bens supérfluos é um reflexo imediato.
E a saída?
Vejo uma delas nas mãos dos professores, que precisam explicar um pouco melhor as pesquisas de opinião a seus alunos, para que se tenha a consciência de que por trás e um número ou uma letra numa tabela existe uma pessoa representada, um ser humano.
Outra está com os diretores de criação, que devem buscar algo mais que perfumaria e prestidigitação nas pastas que os jovens lhes apresentam. E devem orientar melhor os que já se encontram sob sua batuta.
Se precisamos enxergar melhor, use faróis de neblina; mas sempre luz baixa ao cruzar com outro veículo.
Ou nos tornamos melhores, e passamos a criar sem distinção ou favoritismo tanto cartões de visita como grandes campanhas de lançamento de produto, para as classes de A a Z, 0 a 80 anos, ou estaremos, a curto prazo, todos perdidos. Algumas almas já estão.
PS: o título deste artigo é todo o conteúdo de um briefing que recebi uma certa vez.
Paulo Eduardo Rios - Redator e professor de Criação Publicitária (FAVI - Vitória, ES)
Notícias // mais

:: 27/04/05 - MP no CCSP

:: 25/04/05 - Prêmio Aberje

:: 20/04/05 - 19ª Semana de criação

:: 18/04/05 - Estudantes ganham novo concurso

:: 15/04/05 - 2º Prêmio Universitário de Comunicação Social
 :: 13/04/05 - Nave finalista em concurso

:: 11/04/05 - Prêmio Profissionais do Ano
 :: 07/04/05 - Anúncio Dia do Jornalistas
 :: 06/04/05 - London International Festival abre inscrições

:: 04/04/05 - Kiko Siqueira deixa a F2GG

:: 30/03/05 - Redatores de plantão

:: 28/03/05 - Site Palavra Rara

:: 22/03/05 - Vagas na Set Comunicação

:: 21/03/05 - Tem gente que não precisa de propaganda

|