Vitória, 07 de Abril de 2005





















 
:: artigos

Como fazer amigos e influenciar pessoas // 04.04.2005

Trabalhamos com o cognitivismo, os simulacros, o subliminar; a prestidigitação, o ilusionismo, o faz-de-contas. O "make believe" (ou pó-de-pirlimpimpim, se você preferir) é nosso ganha-pão. E quem não sabe do que diabos estou falando, pare de ler agora e vá chupar um chicabom.

Todos os dias temos de convencer as pessoas a comprarem nossas idéias, em detrimento das dos outros. Por idéias entendam-se as próprias, com e sem produtos ou marcas associados - o consumo pode ser ideológico, se não nos esquecemos do termo "propaganda" em sua verdadeira acepção. É neste instante que a engrenagem se revela, e estabelecemos claramente uma linguagem, enxergamos um público-alvo e tomamos consciência de que existe enfim uma concorrência. E, para cada comercial, lá vai um apelo diferente, gritante, vermelho e amarelo, embalado num papel vistoso, exibido numa veiculação inusitada, apitando, sibilando e silvando. Lembro da minha militância no varejo: "mais agressivo", pedia o cliente, a cada vez que voltava o layout; "mais agressivo, mais agressivo!".

A possibilidade de influenciar comportamentos assusta. É nisso que se baseia uma obscura e secular "ciência da persuasão", aqui e ali assumida e investigada. Com os exemplos históricos de Gandhi (para o bem) e Hitler (para o mal), sabemos que as massas, sob circunstâncias favoráveis, anseiam por uma entrega sôfrega a um discurso bem feito.

Com a falta absoluta de espaços urbanos livres de propaganda, uma estrutura social excludente, uma mídia estupidificante de promoção sistemática da mediocridade, num ambiente econômico e político instável sob uma liderança populista, criamos o laboratório perfeito para a manipulação de mentes. Pois favorece esta manipulação a existência das "mentes medianas" - "middle minds", de acordo com Curtis White (A Mente Mediana, Editora Francis, 2005).

Para compreender o que significam as "mentes medianas", saibam que elas estão ganhando. Sua opinião determina tanto o nível da programação como o das conversas de elevador. Até outro dia, para os "middle minds" o funk carioca era ruim, agora não é. Ou, como dizem, já é. É a maioria, ao seu redor no ônibus, atrás de você na escada rolante, neste mesmo recinto em que você está. Para eles, "cultura é algo com que se relacionam muito bem intencionados e totalmente iludidos" (C. White). É quem aparece nas majoritárias, a favor da pena de morte e de pizza portuguesa, nas filas da mega-sena acumulada; gente aparentemente incoerente, contraditória e absolutamente estúpida. São os mesmos que nos deram caudilhos para lembrar para sempre, como Juan Perón, Getúlio Vargas, Fidel Castro, Hugo Chávez e, a se confirmar uma suposta reeleição, Luís Inácio. Pesquisadas, são as pessoas que se deixam influenciar por estas mesmas pesquisas! Daí eu penso: será este o comportamento natural de uma criatura socialmente gregária como os seres humanos, ou a vitória irrefutável do aparato ideológico dominante?

Se o ambiente está impregnado de apelos, nessa "mediaesfera" (Regis Debray) em que habitamos, sendo os "middle minds" a maioria dominante; e estando todos permanentemente influenciados e orientados para o consumo descontrolado de bens, sensações e ideologias; podemos ser vítimas de nosso próprio armamento. Vejam que nós, publicitários, provedores de conteúdo, temos enormes responsabilidades, com causas e conseqüências permanentes a serem num futuro breve avaliadas, com nosso próprio zeitgeist.

Como exemplo desta influência midiática sobre o comportamento das pessoas, poderia falar do último massacre em escola secundária americana, o do dia 21 de março, em que morreram 9 alunos de Red Lake, Minnesota. Menos famoso que Columbine (12 alunos e um professor), porém com as mesmas motivações racistas. Depois do documentário de Michael Moore, todos entendemos ser este o modelo de uma tragédia tipicamente americana, por assim dizer, fruto de uma sociedade assim e assado, blá-blá-blá. Portanto, fácil de entender. Mas, para minha argumentação, encontro o mesmo exemplo mais perto de casa, vários trópicos depois. Em Carmen de Patagones, a 920 quilômetros de Buenos Aires, um dia após assistirem a "Bowling for Columbine", os alunos da Escuela Media Islas Malvinas viveram horror semelhante, quando um estudante de 16 anos matou a tiros outros três, em setembro último. O cinema e a televisão foram apontados como responsáveis pela violência, e o filme exibido exatamente um dia antes pode mesmo ter funcionado como um "gatilho" para disparar o comportamento do menino assassino.

Está clara a influência?

O que me espanta é que aconteceu aqui ao lado, na Argentina, não nos Estados Unidos. Não foi obra de nenhum "wasp" protestante, sequer de um "red neck" do Mississipi; o que tornaria a notícia muito mais palatável e digna de tédio e enfado, seguidos de um inconsciente zap no controle remoto. Mas vejamos que coincidem tanto o modus operandi como as características dos locais dos crimes. Segundo a definição clássica, os massacres em escolas americanas geralmente ocorrem em cidades pequenas ou subúrbios dos grandes centros (wikipedia.com). Ou seja, os sonhos estão logo ali, nas vitrines dos shoppings que, alinhados, formam um skyline feérico de artifícios e promessas. Mas os meios de conseguir satisfazer os desejos não se concretizam.
Estados Unidos ou Argentina, a verdade é que a violência, junto ou por causa da propaganda, globalizou-se.

Os meios de comunicação são o primeiro vilão apontado, e a proibição, censura e qualquer pretexto para a sanção de uma Lei de Imprensa ou algo que o valha, são logo aventados como panacéia pelos alarmistas de plantão. Porém, "a violência real, local e internacional que é exibida nos noticiários gera muito mais angústia nas crianças que uma série de TV" (Clarín, 5/10/2004).

Felizmente, o editorial do jornal argentino, que trata da tragédia até então inédita em seu país, aponta uma solução: "melhor que proibir é permitir pensar".

Então, se possível, que façamos anúncios, comerciais, folhetos, slogans e o que mais pudermos, que façam pensar. Que não instilem mais conflitos que o que já temos para administrar e viver. Vamos construir uma publicidade que não engane, que não seja puramente cosmética, com conteúdo, que eduque pelos argumentos bem dispostos e escritos e pelo olhar arguto que venha excitar. Vamos vender os sonhos, mas vamos financiar a perder de vista e a juro zero as escadas que os alcancem. Chega de discurso da boca pra fora e do bolso pra dentro.

Quem diria, por fim inventaram o publicitário com consciência! Pois lhes confesso que, depois de 15 anos de verbos no imperativo em corpo de letra não menor que 14, está mais para consciência pesada.

Nota: O título deste artigo é o mesmo do clássico livro de Dale Carnegie, lançado em 1930 e que até hoje não li.


Paulo Eduardo Rios - redator
www.marmitexto.blogger.com.br


Voltar para Artigos