Vitória, 07 de Abril de 2005





















 
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E o consumo consciente? // 18.03.2005

Há poucos dias atrás estava vendo TV, numa das raras oportunidades em que isso acontece, quando começou a passar um comercial que me chamou atenção. Nele um homem, enquanto lavava o seu carro, olhou para o relógio e viu que ele estava quebrado. A seguir começou a pensar em como seria bom se as coisas fossem feitas para durar e em todas as consequências desencadeadas por esse fato.

Imaginou que seria ótimo precisar comprar apenas um fogão durante toda a vida, um celular, um aparelho de som. As coisas não seriam feitas apenas para seguir a última moda, nem para parecer que são modernas, teriam que ser realmente bonitas por muito mais tempo. Como as coisas iriam durar mais as pessoas iriam comprar menos e assim iriam gastar menos. As lojas iriam vender menos, não haveria filas, a propaganda diminuiria na TV, nas revistas e, principalmente, não poluiria visualmente mais as cidades. As fábricas produziriam menos e utilizariam menos matérias-primas.

Ao chegar nesse ponto me senti orgulhoso por uma empresa ter desenvolvido uma campanha exaltando o ideal de consumo sustentável, preocupada com conceitos como uso racional de matérias-primas, e o melhor: desenvolvido uma campanha exaltando o consumo consciente e a diminuição da excessiva quantidade de mensagens publicitárias.

Foi aí que tudo mudou.

Na nossa pequena história o protagonista começa pensar que se tudo citado antes acontecesse as fábricas não precisariam de tanta gente e ele ficaria sem trabalho. E o pior: sem trabalho não poderia mais comprar o seu automóvel.

Nesse instante ele começa a "despensar" tudo o que ele tinha imaginado, até que solta a frase: "Pensando bem, que bom que nem tudo é tão perfeito". Toda a realidade ideal sustentável que ele pensou é jogada no lixo apenas pelo desejo de ter um automóvel.
Banho de água fria. Decepção.

Pensei: realmente nada mudou. Como uma empresa que diz que sua relação com o consumidor é pautada pelo respeito, carinho e confiança, veicula uma campanha em que diz em outras palavras: "dane-se o mundo em que você vive, se você comprar nossos carros tudo estará bem".
Não sejamos hipócritas, a publicidade é voltada para criar necessidades e assim gerar consumo, vender, independente das consequências. Quem não estiver de acordo que mude de área. Agora, justo num momento em que se tenta achar uma solução para a preservação do que resta desse mundo, e que mais do que nunca nas empresas e indústrias se fala em sustentabilidade, um comercial de trinta segundos, veiculado em rede nacional com uma mensagem dessas é um passo gigante para trás. E um tiro no pé.

Afinal se continuarmos no ritmo de degradação em que estamos, pouco restará de nós, e aí gostaria de saber o que seria capaz de dirigir um carro.


Pedro Bullos é redator publicitário e ainda tem consciência.

www.eotexto.blogspot.com


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