Vitória, 28 de Abril de 2005





















 
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Zero, nota zero// 22.02.2005

Duas coisas aconteceram no desfile do Carnaval do Rio de Janeiro deste ano que dão muito o que pensar sobre o futuro de nossa profissão - vejam que consigo ser catastrofista até com a folia!

Na passagem da Portela, a Velha Guarda foi impedida de desfilar por um erro na cronometragem. Para não atrasar ainda mais a apresentação da escola, acabaram por passar pelo Sambódromo depois do último carro, sem música, em absoluto silêncio. Era um autêntico cortejo fúnebre. Então, os únicos que ali estavam por motivos outros que não aparecer na televisão, esbanjar centenas de reais em fantasias exuberantes e cirurgias plásticas e ganhar dinheiro pela venda de espaços patrocinados em sua indumentária, estavam sendo expulsos do paraíso mergulhados em humilhação e vergonha. Enfim, eram mais importante os pontos da competição que a alegria do desfile para os fundadores da venerável agremiação de Madureira.

O segundo fato que me traz a este texto foi o patrocínio oficializado dos enredos de 2005 que várias "comunidades" apresentaram na Marquês de Sapucaí.

Quanta hipocrisia. Reparem que a Liga das Escolas de Samba (Liesa) proíbe a prática, mas bem que fechou os olhos para as "referências indiretas" que fizeram a Tradição, Grande Rio, Mocidade Independente de Padre Miguel, Mangueira e Vila Isabel, só para resumir.

Com o enredo "De sol a sol, a soja - Um negócio da China!", a Tradição embolsou oficialmente R$ 1 milhão da Case New Holland (CNH) (do grupo Fiat) e da Dow Chemical americana, tudo negociado com a participação do governador do estado maior produtor e exportador de soja, Mato Grosso, o senhor Blairo Maggi. Além da propaganda, pela avenida desfilou a CS660, a maior colheitadeira de soja da New Holland, junto a uma ala formada por 120 funcionários da fábrica de Curitiba. Segundo o diretor comercial da empresa, Francesco Pallardo, o objetivo era tornar a marca "mais conhecida do público urbano (sic)" - Valor Econômico, 09/02/2005.

Mais dinheiro estrangeiro coube à Vila Isabel, que, com seu enredo "Singrando os Mares e construindo o Brasil", amealhou um cascalho (R$ 1 milhão) dos estaleiros Mac Laren, Fels Setal, Mauá-Jurong e Aker, controlados pelo grupo norueguês Aker Yards.

A Grande Rio foi de "Alimentar corpo e alma faz bem", bancado pela Nestlé (R$ 2,5 milhões). A escola de Padre Miguel apresentou a cultura italiana sob o patrocínio da TIM, com "Buon mangiare, Mocidade! A arte nesta na mesa".

Até aí, tudo bem. Mas o pior vem agora: para a Mangueira foram drenados recursos federais da ordem de R$ 3,5 milhões, fruto de patrocínios da Petrobrás e da Eletrobrás. Em pleno governo popular do PT, estatais investiram o seu, o meu, o nosso rico dinheirinho, que tanta falta faz nos programas sociais, para inspirar o esplendoroso enredo verde-e-rosa "Mangueira energiza a avenida - Carnaval é pura energia e a energia é o nosso desafio". Reconheceram o slogan da estatal petrolífera? Pois era possível reconhecer também, se bem que debaixo de tantas penas e paetês, o presidente da companhia, José Eduardo Dutra, desfilando na Ala dos
Artistas.

Mas, qual era mesmo o briefing? De acordo com Eliane Costa, Gerente de Patrocínios, esta foi uma oportunidade de "falar sobre energia limpa e despoluição, campos que a empresa tem interesse em apoiar (sic)" - Agência Brasil. Para completar a festa, Petrobrás e Eletrobrás (esta entre um apagão e outro), montaram um camarote na Sapucaí, de onde investidores convidados, a diretoria e funcionários da empresa de todo o Brasil, puderam assistir ao desfile.

É, minha gente, o Carnaval acabou. O Carnaval romântico, boêmio e inocente, o dos barracões e dos fundos de quintal, acabou. Para o ano que vem as escolas já estarão instaladas num complexo construído pela Prefeitura do Rio, a Fábrica do Samba; galpões industriais com espaços para todas as escolas, mais bares, lojas e restaurantes que possam capitalizar em cima da estrutura industrial a que o sonho foi submetido.

E por aí vai. Hoje vemos até casamentos serem patrocinados, como os dos nubentes Luciano Huck & Angélica e Ronaldo & Ciccareli. Acabando com a naturalidade dos ritos de passagem, com as cerimônias e celebrações espontâneas, corremos o risco de midiatizar nossa vida a um ponto que talvez não haja retorno.

Imagine um primeiro beijo, a primeira transa, mercantilizados. Ah, mas isso já acontece há muito tempo!

Meu Deus, é verdade. Isso já acontece há muito tempo.


Paulo Eduardo Rios - redator
www.marmitexto.blogger.com.br


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