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Treinar pra quê? // 16.12.2004
Essa é uma profissão competitiva. Você está pronto para o desafio, mané? Ou vai ficar aí, chorando feito uma mulherzinha?
Para entrar em disputa a qualquer momento, bom mesmo é ficar em forma. Treinamento. No pain, no gain. Eu treino nos concursos de frases que existem por aí.
É sério. Veja, para mim é impossível pensar em um só briefing, o tempo todo, exclusivamente. Desculpem, clientes, mas isso é muito chato. Por isso o ideal é atender a várias contas e a diferentes demandas ao mesmo tempo. Mantém o motor no torque e os dentes afiados. Mas a gente ainda quer mais. A mente trabalha, e só o que ela quer fazer! Foi para manter a forma e distrair a cabeça entre um prazo apertado e outro que descobri este "passatempo".
Você conhece, é só parar para ouvir um pouco o rádio, passear entre as gôndolas do mercado menos apressado que o normal e, pronto! Lá estão, divulgados nos intervalos, em flyers ou distraídas bandeirolas, os pequenos editais da fortuna cotidiana, os indefectíveis concursos de frases. Contam em média uma centena ao ano e, invariavelmente, lá estou participando. E o melhor da história: de tanto insistir, finalmente consegui ganhar alguns!
Entre viagens, uma para São Paulo, para assistir ao VMB, uma para a Riviera Maia, no México e outra para o Rio de Janeiro - dentre vários outros destinos que tentei, mas tá valendo. E ainda uma camiseta, uma máquina fotográfica descartável e um CD d'Os Ostras, da revista Fluir. Esse último (um som legal, até) ganhei por ter descrito um dia perfeito de surfe. Detalhe: nunca peguei uma onda na vida.
Essa é a brincadeira, sacou? Pegar o regulamento como um briefing ordinário qualquer e cair matando. É só encaixar as informações com o que já conhecemos, público-alvo, blábláblá, e os formatos, que, no caso, são os limites malucos deles lá, essas coisas de no máximo tantas palavras, 5 linhas ou até uma página.
E daí se não tenho as manhas do surfe? Quantas vezes você não teve de escrever como se fosse o maior expert da parada sobre os assuntos mais malucos, como drenagem linfática, lingotamento contínuo, clima organizacional, ongs, oscips, inseminação artificial?!
E então, preparado para dizer por que você merece uma viagem para Balneário Camboriú em no máximo 20 palavras?
A partir de agora, encare desafios como estes não como algo menor, só como o que são. Pequenos.
Talvez os donos de agência e diretores pudessem perceber melhor estes prêmios pouco ortodoxos nos currículos de alguns dos candidatos às suas criações. Imagine figurar com destaque em seu resumée, ao invés de um leão em Cannes, uma viagem ganha para Cannes com uma frase genial sobre bronzeador e o verão, ou algo que o valha. Ainda, talvez esses mesmos caras devessem mesmo tentar observar outras qualidades que não pudessem ser impressas em alta resolução.
É claro que "treino é treino, jogo é jogo", como já dizia Neném Prancha, antigo roupeiro do Botafogo e filósofo do futebol. E que clientes não são jurados se empanturrando de pizza pela madrugada nas redações das revistas. Mas quando o sujeito é mesmo bom de bola, não reclama do gramado, e dá show até em pelada de várzea.
Tudo bem, você pode estar pensando, que grande perda de tempo, poderíamos estar utilizando todo este trabalho para promover a paz entre os povos. É, talvez. Posso pensar nisso quando estiver arrumando a mochila para aquela viagem ao Rio. Tenho de ir até março, a van vai pegar a gente no aeroporto e levar para o hotel 5 estrelas de frente para o mar. Aproveito para visitar minha afilhada, a Nina, que há muito não vejo, e minha tia também.
Paulo Eduardo Rios - redator
www.marmitexto.blogger.com.br
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